15 agosto, 2017

Aprendendo com Martha Medeiros



Aprendendo com Martha Medeiros

Só quem atravessa ao menos cinco décadas de vida pode entender a bênção que é entrar na segunda juventude.

Claro que antes é preciso passar pelo purgatório.

Poucos chegam aos 50 anos sem fazer uma profunda reflexão sobre a finitude, e dá um frio na barriga, claro. 

Amedronta principalmente quem ainda não fez nem metade do que gostaria de já ter feito a essa altura. Será que vai dar tempo?
Passado o susto, a resposta: vai. 

E se não der, não tem problema. 
Você não precisa morrer colecionando vontades não realizadas.
Troque de vontades e siga em frente sem ruminar arrependimentos.
Você finalmente atingiu o apogeu da sua juventude: é livre como nunca foi antes.

Então, não passe mais nem um dia ao lado de alguém que lhe esnoba, lhe provoca, que não se importa com seus sentimentos. Pare de inventar razões para manter seus infortúnios, você já fez sacrifícios suficientes, agora se permita um caminho mais fácil.

Se ainda dá trela a fantasmas, se ainda pensa em vingancinhas ordinárias, se ainda não perdoou seus pais e seu passado, se ainda perde tempo com vaidades e ambições desmedidas, se ainda está preocupado com o que os outros pensam sobre você, está pedindo: logo, logo virará um caco.

Para alcançar e merecer a segunda juventude, é preciso se desapegar de todas aquelas preocupações que havia na primeira.

Quando essa Juventude Parte 2 terminar, não virá a Juventude Parte 3, mas o fim. 

Ou seja, esta é a última e deliciosa oportunidade de abandonar os rancores, não perder mais tempo com besteiras e dar adeus à arrogância, à petulância, à agressividade, ou seja, adeus às armas, aquelas que você usava para se defender contra inimigos imaginários.

Agora ninguém mais lhe ataca, só o tempo – em vez de brigar contra ele, alie-se a ele, tome o tempo todo para si.

Eu sei que você teve problemas, e talvez ainda tenha – muitos.
Eu também tive, talvez não tão graves, depende da perspectiva que se olha. 

Mas isso não pode nos impedir a graça de sermos joviais como nunca fomos antes.

Lembra quando você dizia que só gostaria de voltar à adolescência se pudesse ter a cabeça que tem hoje? 
Praticamente está acontecendo.

Essa é a diferença que tem que ser comemorada.

Na primeira juventude, tudo vai acontecer.


Na segunda, está acontecendo.

01 agosto, 2017

Envelhecer



Envelhecer

No outro dia, uma jovem jovem perguntou-me:
 - O que sentes em ser velha ?

Fiquei surpreendida com a pergunta, já que nunca me senti velha.

Quando a rapariga viu a minha reação, ela pediu-me desculpa, mas expliquei-lhe que era uma pergunta interessante.

 E depois pensei, pensei que envelhecer é um presente.

Às vezes, surpreende-me a pessoa que vejo no meu espelho. Mas não me preocupo com ela há muito tempo.

Eu não mudaria nada do que eu tenho para algumas rugas em menos e uma barriga plana.

Não me crítica mais porque não gosto de arrumar a cama, ou porque não como algumas " coisas”.

Sinto-me finalmente no meu direito de ser desordenada, extravagante e passar as minhas horas contemplando as flores.

Eu vi alguns queridos amigos sair deste mundo, antes de desfrutar da liberdade que vem com o envelhecimento.

Quem se importa se eu optar por ler ou jogar no computador até às 4 da manhã e depois dormir até quem sabe que agora?

Quem se importa se eu dançar sozinha ouvindo a música dos anos 50?
E se depois eu quiser chorar por um amor perdido?

E se eu andar na praia de roupa de banho, levar a passear meu corpo gordinho e me mergulhar entre as ondas deixando-me embalar, apesar dos olhares daqueles que ainda usam o biquíni, serão velhos também se tiverem sorte.

É verdade que através dos anos o meu coração sofreu pela perda de uma pessoa querida, mas é o sofrimento que nos dá força e nos faz crescer. Um coração que não se partiu, é estéril e nunca vai saber da felicidade de ser imperfeito.

Estou orgulhosa de ter vivido o suficiente para fazer branquear o meu cabelo e para manter o sorriso da minha juventude, de quando ainda não havia sulcos profundos no meu rosto.

Ora, para responder à pergunta com sinceridade, posso dizer:
Eu gosto de ser velha, porque a velhice me faz mais sábia, mais livre!

Eu sei que não vou viver para sempre, mas enquanto estou aqui, quero viver de acordo com as minhas leis, as do meu coração.

Não quero reclamar pelo que não foi, nem me preocupar com o que será.
No tempo que resta, simplesmente amarei a vida como fiz até hoje, o resto eu deixo a Deus.



Text: Sandra Benedetti