A Idade em Que o Tempo
Senta à Mesa.
Existe
uma fase da vida em que o espelho começa a nos tratar com uma sinceridade quase
ofensiva.
Os
cabelos debandam discretamente. Os joelhos passam a emitir boletins sonoros. A
memória, às vezes, resolve brincar de esconde-esconde justamente com o nome
daquela pessoa que acabamos de encontrar no supermercado.
E
há também o fenômeno mais cruel de todos: levantar da cadeira emitindo um
“opa!” involuntário… como se a coluna precisasse de autorização verbal para
funcionar.
Mas
talvez exista uma beleza secreta nisso tudo.
Porque,
enquanto o corpo vai lentamente negociando limites com o tempo, a alma —
curiosamente — começa a ficar maior.
Mais
generosa. Mais paciente. Mais humana.
Chega
uma idade em que já não precisamos vencer discussões inúteis. Nem provar
inteligência. Nem disputar importância. A vida finalmente nos ensina que certos
troféus pesam mais do que valem.
Então
começamos a trocar pressa por presença.
O
café deixa de ser apenas café. Vira cerimônia. Vira encontro. Vira desculpa
para conversar sem relógio.
E
o amor… Ah, o amor também muda.
Dormir a noite inteira sem acordar duas vezes para ir ao banheiro virou quase uma experiência transcendental.
Encontrar um exame médico com todos os índices normais provoca emoção semelhante à conquista de uma Copa do Mundo.
E viajar
sem esquecer os remédios já pode ser considerado um ato de ousadia
internacional.
Mas
existe algo profundamente épico em continuar vivendo com ternura apesar de
tudo.
Talvez
seja isso que sustenta o mundo sem que a gente perceba: homens e mulheres
comuns insistindo delicadamente em continuar amando a vida.
É descobrir que felicidade talvez nunca tenha sido uma linha de chegada. Era apenas aquela conversa boa depois do almoço… o telefonema inesperado… o abraço demorado… o amigo que ainda lembra do seu apelido de juventude… e a mesa onde alguém sempre guarda um lugar para você.
aprender
que a vida não precisa mais correr.
Agora
ela pode apenas… sentar conosco à mesa.
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