R
E F L E T I N D O
O que transforma a gente?
Durante
muito tempo pensei que fosse o tempo.
Hoje já não
penso mais assim.
O tempo,
por si só, apenas passa. Quem verdadeiramente nos transforma é a vida.
É ela quem,
silenciosamente, vai esculpindo a nossa alma.
Somos
moldados pelos encontros que nos aquecem e pelas despedidas que nos rasgam o
coração.
Pelas
alegrias que nos fazem sorrir sem perceber e pelas lágrimas que insistem em
cair quando imaginávamos já não haver mais lágrimas para derramar.
A vida é
uma escultora paciente.
Ela não
trabalha com martelos de ferro, mas com ferramentas invisíveis.
Esculpe-nos
com a saudade.
Com o amor.
Com as
decepções.
Com as
esperanças.
Com os
sonhos que florescem.
E, também,
com aqueles que nunca chegaram a acontecer.
Cada pessoa
que entra em nossa existência deixa alguma marca.
Algumas
permanecem por poucos dias, como uma brisa de primavera que refresca o rosto e
segue adiante.
Outras permanecem para sempre, mesmo quando já
não estão fisicamente ao nosso lado.
Há pessoas
que nos ensinam pelo carinho.
Outras,
pela ausência.
Há quem nos
transforme com um abraço.
E há quem
nos transforme justamente porque um dia nos negou esse abraço.
Tudo deixa
marcas.
Tudo
ensina.
Tudo
acrescenta.
A dor, por
exemplo, nunca foi uma hóspede desejada. Ninguém acorda pedindo sofrimento.
Mas,
curiosamente, são os períodos mais difíceis que nos obrigam a descobrir forças
que nem imaginávamos possuir.
É nas
noites mais escuras que aprendemos a procurar as estrelas.
É nas
tempestades que descobrimos o valor dos abrigos.
É quando a
saúde vacila que compreendemos o privilégio de simplesmente acordar bem,
caminhar sem dor,
respirar
profundamente e agradecer por mais um dia.
Com o
passar dos anos, vamos percebendo que envelhecer não significa apenas somar
aniversários.
Envelhecer
é aprender.
É deixar de
colecionar coisas para colecionar lembranças.
É
compreender que o relógio mede as horas, mas jamais conseguirá medir o amor, a
saudade, a esperança ou a gratidão.
Também
descobrimos que quase nunca são as grandes conquistas que mudam uma vida.
Às vezes é
uma conversa inesperada.
Um gesto de
perdão.
Uma mão
estendida.
Um livro.
Uma música.
Uma
fotografia antiga.
Ou
simplesmente uma janela aberta, diante da qual paramos por alguns minutos para
observar a vida acontecendo
enquanto
percebemos que também estamos sendo transformados por ela.
A
verdadeira transformação acontece em silêncio.
Ela não faz
anúncios.
Não pede
aplausos.
Ela
acontece dentro do coração.
Um dia
percebemos que já não sentimos raiva como antes.
Que
aprendemos a perdoar.
Que
passamos a ouvir mais e julgar menos.
Que o
orgulho perdeu espaço para a compreensão.
Que a
pressa deu lugar à serenidade.
E então
compreendemos que a vida cumpriu, discretamente, o seu papel.
Transformou-nos.
Talvez seja
exatamente esse o sentido da nossa passagem por este mundo.
Não viver
apenas para acumular bens, títulos ou reconhecimento.
Mas viver
para nos tornarmos seres humanos melhores.
Mais
sensíveis à dor do próximo.
Mais
generosos nas palavras.
Mais
humildes nas vitórias.
Mais fortes
diante das dificuldades.
Mais
agradecidos pelos pequenos milagres que acontecem todos os dias e que tantas
vezes passam despercebidos.
No final da
caminhada, ninguém será lembrado pelo tamanho da casa onde morou ou pelo
automóvel que dirigiu.
Seremos
lembrados pelo bem que fizemos.
Pelo amor
que distribuímos.
Pela paz
que deixamos.
Pelas mãos
que seguramos quando alguém precisava de apoio.
Pelas
lágrimas que enxugamos.
Pelas
esperanças que ajudamos a manter vivas.
É isso que
transforma a gente.
Não é o
tempo.
É a forma
como permitimos que a vida entre em nosso coração e faça dele um lugar mais
iluminado.
E talvez
seja essa a mais bela obra de Deus.
Transformar,
pouco a pouco, a dureza em ternura, o orgulho em humildade, a dor em sabedoria
e a existência em um permanente aprendizado de amor.
Porque, no
fim de tudo, viver não é apenas atravessar os anos.
É permitir
que cada amanhecer nos torne um pouco mais humanos do que fomos no dia
anterior.
Espero que,
ao terminar esta leitura, cada pessoa faça a mesma pergunta que fiz a mim
mesmo:
“A vida tem me endurecido… ou tem me tornado
uma pessoa melhor?” Talvez seja nessa resposta que esteja a verdadeira
transformação.
Text by Paulo Ernesto
Medeiros / PEM
Photo by Helga